
Quando eu nasci não sabia que ia morrer.
Quando tu vieste ao mundo, mal abrias os olhos e, nem desconfiavas que vinhas para uma passagem efémera,
Quando tinha dois anos abraçava as árvores e julgava que quem cuidava de mim e eu, iriamos ser felizes para todo o sempre.
Quando tu tinhas seis anos choravas contra a almofada porque já te tinham explicado que as pessoas iam para o céu. E sofrias porque não querias que os teus pais e a tua ama fossem. É que nesse dia reparaste que o céu não era a Terra e que esse tal lugar (que mais tarde entendes ser utópico, de facto) não existe perto de ti. Aí corres e abraças com força o teu pai, o teu avô e o bebé.
Agora, aos 17, percebo que esse céu não é mais do que uma forma suave de dizer aos pequenos que foram abandonados e para guardarmos esse lugar quando precisarmos de conforto na hora da saudade. Pois basta abrir a janela, ver o azul e nem precisas de te esforçar para que vejas o céu dessa pessoa que partiu embatida nos teus olhos e refractada no teu peito.
Agora, talvez analisando as coisas de uma forma mais fria, mas nunca perdendo a inocência e a crença na minha ama, reparo que o homem está à partida condenado à morte. Parece brusco de dizer, arrepia ao ler e incomoda pensar. Nem nunca iremos aceitar a ideia, jamais nos iremos satisfazer quando percebemos que o tempo luta contra nós, nos rasga o rosto, tal como o vento nos arrefece o corpo.
Tudo o que escrevo ou deambulo, os meus gestos, o olhar que carrego, nada mais ganham para além da humildade do passar do instante, a caminho do único ser indomável - meu caro tempo.
Momentaneamente o que me alivia é a ideia ou a ilusão de poder deixar saudade (tal e qual como alguém depositou em mim esse sentimento); o que me apara a angústia é saber que posso contribuir para esta merda e depois ir em conformidade por esse horizonte fora. De consciência traquila duvido, pois como Steven Wright escreveu e passo a citar: "consciência limpa é, geralmente, sinal de péssima memória".
Penso que cada um de nós se torna imortal na medida em que deixa a sua mensagem, o seu testemunho, não importa se a um ímpar ou ao mundo inteiro.
Poderia mencionar um número infinito de célebres e marcantes sábios que outrora passaram por aqui e que agora ainda reencarnam a lembrança: Joaquim Alvaro, Steven Wright , Amilcar Henriques, Kant, Nietzche, Sophia de Mello Breyner, Afonso Henriques, Sócrates, Pitágoras e por aí adiante... Esses homens ficarão registados na bíblia da Terra e é por isso que nos atrevemos a recitá-los e a diferenciá-los apesar das épocas, dos séculos, do tempo.
Mas não seremos nós mortais quando os dinossauros voltarem num meteorito à Terra?
Sim, uma vez que eles são analfabetos e só nós, humanos valorizamos (ou não) o entendimento uns em relaçãos aos outros.
A escrita foi "só" um pretexto para elevar a nossa comunicação, as nossas descobertas, os nossos registos. Por sermos insatisfeitos, alucinados ou racionais, sofredores e metódicos, escrevemos.
Se todas as palavras vão um dia enterrar-se no mar, porque estou eu aqui ainda escrevendo?
Talvez devesse dedicar-me à arte rupestre. Pode ser que os dinossauros saibam reconhecer jibóias abertas e direrenciá-las de jibóias fechadas, tal como as crianças.