terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Cega-surda-muda


Quando me beijaste
Concentraste em mim todos os beijos
Os que já deste
E até os que não deste, os que ficaram imaculados e reservados por aquele a quem chamaram tempo.

Reuniste todas as melodias
Para me ensurdecer os ouvidos,
Ou para me calar os lábios.
Talvez para que passasse a prestar-te só atenção a ti…

Egoísta! Ordenaste e fizeste-te o microfone e as colunas – tudo ao mesmo tempo – só para me prender o olhar vazio, a voz despida no íntimo do teu ouvido.

Beijaste-me nua
Assim me deixaste:
Cega-surda-muda.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Gotejar



Óh chuva gosto de te ouvir o soneto
De te cortejar a fórmula
De te envolver no perfume
De te ver embater contra o chão,
Molhando-o.

E voltar de novo a escutar-te a melodia
A embalares o meu peito
A inundares-me o espírito
Que carece, é ferido e frio – insípido.

Como um ciclo vicioso.
Como sou gente tenho vícios:
A paixão, o fumo tóxico, o suor e o teu.

O teu é de léguas e trévoas o mais omnipotente
Intocável, genuíno e impossivelmente transponível
Ou de interferência radioactiva.

Óh chuva por ti não se pode morrer
(Não se derrama uma única plácida gota vermelha)!

Quase te transpareces num maremoto,
Numa onda salvadora que me faz desprender de mim;
Assim, manténs-me fiel e sem equívocos.

És aquela por quem nem se derrama
Nem se afasta nem se decepciona.

Que não haja ionosfera entre nós
Eu odeio guarda-chuvas
Eles impedem-te de esbarrar nua
Contra mim.

Óh chuva o teu dogma é mudo e vazio
O que me sustem e ergue
Na passagem, no tropeçar dos dias.

Ainda soltas um terno sorriso
Esboçado no arco-íris,
Aí iluminas-me a calma
Refractas o meu coração em estilhaços – quebrados do mundo
E preenchidos por esta condição de Ser
Eu a tua serva.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

TeoAntropocentrismo


Presos entre o clássico e o mediano
Libertinos - agora.
Uma união de factos entre Teo e Antro
Centrismo.

Um jardim com céu, o Teo
Uma Terra molhada, lagrimada
Sentida, à mercê
E por isso pe(n)sada
No íntimo da Criação.

Tão divididos, tão vitoriosamente unidos
Têm a certeza que a atmosfera divide a Terra do Céu?
Entre cantigas de amor, escárnio e mal-dizer – mas
Enfim de livre-arbítrio
Reluz uma nova Era.

Dotados e somente limitados
Nesta descoberta do ser (centrista)

Desaparece e vem de mansinho
Dá meia volta e abarca
Nesta escada em caracol, nesta perdição
Paixão que é viver.

Por ti, por mim intercepta-nos
Confunde-nos algemados no limiar da noite.
Desaparece e regressa ao rejubilar da não noite
Ao amanhecer
Da invenção, da loucura.

É um amar louco
Por ser louco e pela consciência de que o É
É-o com uma única certeza – a da razão.

Paralela, inibida, pagã, em crescimento
Nossa vivacidade.

Expirando o mundo


O mundo era melhor antes de eu fumar
Era mais redondo antes de respirar a beata a fundo e
Jogá-la ao chão.

Eram menos umas quantas crianças
Que nunca apanhariam do chão
Curiosas não provariam.

Eram menos algumas que os cães (não diria burros, mas menos intelectuais)
Ingeriam.

Qual é a solução para contribuir para um mundo melhor?
1º Pegar um saco de plástico e guardar as beatas
Depois expô-las numa parede do quarto
Em quadrado – como a nossa inteligência – homenageando a Terra?
2º Deixar de fumar?

Se não engolir o ar que
Hora sim, Hora não levo à boca
Não havia aquecimento global!

Qual é a alternativa?
1º Absorver e engolir o fumo
Concentrando todas as minhas forças
Nos pulmões, de forma a não Expirar?
Assim morreria para fumar!
2º Largar o vício?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ligação


" Apesar de tudo, sempre que posso vou dar uma espiada ao teu blog.. A princípio foi um choque (não no sentido negativo) tomar contacto com a tua personalidade, com a tua arte. Eu não te conhecia, como podia eu? Fiquei mesmo muito entusiasmado, é um mundo novo. Embora nem sempre compreenda o que escreves, os textos são um bocado pessoais, mas são genuínos. Não sou capaz de os criticar, posso discutí-los mas não mudaria nem uma vírgula. Vou estar lá sempre, mesmo que não diga nada.

Tu cresceste... tornaste-te maior por dentro e por fora. E ainda invocas a criança que és. Vais ter de cuidar bem dessa tua faceta, às vezes a gente esquece-se... esquecemo-nos de ser crianças. O mundo arrasta-nos mais para longe da criança do que o tempo. "

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Esquecer ou Recordar ?


A maior parte de nós lamenta e contesta o esquecimento.
Agora pensa e lembra-te de alguns episódios caricatos da tua vida… Imagina o teu presente se eles não estivessem (pelo menos) parcialmente enublados lá ao longe.

Se a memória é uma das maiores faculdades humanas, então esquecer é o que nos permite erguer caminho para novamente viver, tropeçar, recordar e/ou esquecer.

Não ser capaz de esquecer pode ser tão ou mais perturbador do que não lembrar. Aparentemente apresenta-se como um paradoxo, mas o esquecimento é a condição sem a qual não poderíamos continuar a recordar. O acto involuntário de esquecer (involuntário porque quanto mais a consciência nos impele “Esquece”, mais nos lembra o coração) não é apenas e só uma realidade inerente à memória, mas, essencialmente, uma necessidade.

Imagina agora o objecto “telemóvel”. Se não fores “estranho” ocorre-te automaticamente um exemplo unificador da ideia de telemóvel. Existem pessoas com uma capacidade “extra terrestre” de memorizar; essas em vez de uma ideia de telemóvel, terão acesso a milhares de imagens de telemóveis, cada um com uma particularidade diferente. Agora pondera-te como um armazenador nato, um disco rígido atulhado de informação. Parece assustador não? Lembrar tudo como se fosse ontem: todas as palavras, todos os gestos e imagens, independentemente de estes se apresentarem como bons ou péssimos.

Se por um lado a lembrança faz de nós quem somos, há uma boa parte de nós (talvez a que não interessa) que se desvanece no tempo, que se desprende de nós.

Porque aquilo que fomos contribui inevitavelmente para o que somos e sem isso não seríamos nós próprios, apenas um deserto. Não passaríamos de uma redoma, mas sem flor. É que essa flor teria semente, só que a raiz não germinava e assim seria infértil, esquecida.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Homenagem a uma Pessoa


" - "A alma humana é um manicómio de caricaturas. Se uma alma pudesse revelar-se com verdade, nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas e definidas, seria, como dizem da verdade, um poço, mas um poço sinistro cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas de subjectividade (Bernardo Soares)."

- É por estas e por outras que me identifico TANTO com a tua alma. É preciso dizer mais alguma coisa? Obrigada pela partilha. Beijinho na testa (que é sinal de respeito).

- Não é preciso, e foi por isso que não disse... Depois tenho que te mostrar o texto que tou ler... Tão lindo. Outro *

- Tens sempre tantas coisas para me mostrar. Textos, músicas e sorrisos *

- Prefiro os sorrisos, ao menos são sempre sinceros * "


Parabéns, atrasados. (Se não fossem atrasados já não eram meus).

Sabes... Por uns tempos tive a tua imagem à distância (fisicamente), pensando que o facto de estares longe implicava que, inequivocamente, te afastasses do nosso pacto. Mas agora, hoje, aqui tenho a certeza e a segurança da tua Nobre Amizade. O segredo que ela - a nossa ligação - esconde?

"So close, no matter how far"

Não é uma sombra, é uma alma, uma Pessoa (com P em "caps lock")! É parte do ser que em mim habita.

Neuza Gomes - 7/11/ 2009 - data o BI. Para mim é bem mais, porque para ti minha Gem(e)a jamais haverá dia ou hora marcada.
Porque tu, tal como eu, vives na ilusão utópica de ser criança e, por isso, te concedo o meu presente - ano 2009 - como início de vida, uma nova reencarnação de ti própria.